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CIBERNÉTICA E ENTEOGÊNICA: DO CIBERESPAÇO AO NEUROESPAÇO

Palestra de Peter Lamborn Wilson, (aka Hakim Bey)

(Proferida durante o Festival Next Five Minutes - Tactical Media - Amsterdam, em 19 de Janeiro de 1996)

Aprendi o termo “Neuroespaço” do artista Vladimir Muzehesky, de Kiev, por meio de Geert Lovink. O que imediatamente pensei que ele queria dizer com isso era uma comparação deste espaço que é posto como pertencente ao computador, com o espaço neural ou a experiência do corpo-interior (inner-body) que vem, para a maioria de nós, principalmente através de drogas psicodélicas - neuroespaço como o espaço de alucinações, por exemplo. Gostaria de comparar e contrastar, como eles costumavam dizer na escola, ciberespaço e neuroespaço. Há semelhanças e diferenças.

Recordo-me de alguns anos atrás, quando a realidade virtual subitamente apareceu com grande êxito na cena, de haver ido a uma conferência em Nova York onde Timothy Leary, que Deus o abençoe, apareceu com Jaron Lanier e mais outros cibernautas. Tim estava pondo as luvas, estava no palco e disse: “Oooh, eu estive aqui antes.” Então desde o começo havia esta conexão feita entre a realidade virtual e a experiência com LSD - ou como alguns preferem chamá-la “a experiência enteogênica”, que é só uma maneira fantasiosa de não usar a palavra psicodélica por que ela alerta a polícia. Na verdade, “enteogênico” significa o nascimento do “Divino Interior”. Sou capaz de usar este termo que é significativo para mim mesmo que não seja um teísta no sentido estrito da palavra. Não penso que você

deve acreditar em Deus para entender que pode haver uma experiência do Divino Tornando-se Interior.

De fato historicamente - e, ao menos para mim, experiencialmente e existencialmente - esse tem sido o mais importante aspecto do reaparecimento de drogas psicodélicas durante minha vida. Sou quase um exato contemporâneo do LSD : Nasci em 1945, e Albert Hoffmann já estava inventando várias versões preliminares. No verão passado consegui encontrar Hoffmann, e ele ainda é uma maravilhosa propaganda para a experiência psicodélica. Está bem avançado nos oitenta, e é sadio e cordial, mantém todas suas células cerebrais e ainda está trabalhando, come como um cavalo, bebe como um peixe! É do curso de minha existência que estamos falando.

Há uma questão histórica, na própria história das religiões, e que é: De onde vêm os psicodélicos?

Terence McKenna acredita que a própria consciência humana é uma função da experiência psicodélica, especificamente do cogumelo de psilocibina. Ele acredita que um dia um macaco tomou um cogumelo e se tornou humano, por que a cognição apareceu. Terence diz que o que nos faz humano é a experiência psicodélica. Não sei se acredito literalmente nisto; em todo caso, não acredito em nenhuma origem única para a consciência humana. Mas é iluminador pensar na possibilidade de que devemos nossa diferença dos outros membros do clã símio por nossa habilidade de experimentar psicodélicos de determinada maneira. Se fosse este o caso, seria verdade que toda nossa experiência de cognição - a qual historicamente pertence à categoria do que é conhecido como “religião” - poderia ter começado com psicodélicos. Toda a experiência psicodélica coexistiu no tempo com o tornar-se homem. Uma hipótese interessante; podemos adicioná-la a todas as teorias de origens do homem.

Gosto de pensar em palimpsestos. Na Idade Média eles não tinham muito papel, assim escreviam de uma forma no papel e depois escreviam de outra forma no mesmo papel. Algumas vezes eles até escreviam de uma terceira forma. Estavam acostumados a ler assim. Minha aproximação à teoria é palimpsêstica: gosto de empilhar teorias umas sobres as outras e trazer o bloco completo para a luz e ver se alguma luz está tendo êxito. Pense nisso como gels de animação, mas com a escrita numa pilha. Adicione todas essas teorias, uma sobre a outra.

A maneira positiva de olhar para a consciência é que é “nós”. O aspecto ruim disso é que a própria consciência pareceria ser um processo de separação. Georges Bataille falou sobre isto de um modo interessante: ele hipotetizou que toda religião diz respeito a um traço de memória de um tempo em que o humano estava separado da natureza - do animal, vamos dizer. E se você acredita em evolução, isto é apenas literalmente verdadeiro. Houve um tempo quando nós éramos macacos de algum tipo. É no momento da consciência que esta separação ocorre. Subitamente não é mais uma questão da experiência animal e o que Bataille chama de “intimidade original.” Nós somos agora tirados da matriz e plugados na cognição. Religião desta forma começa imediatamente depois deste momento, porque religio significa religar, reconectar novamente. O que estamos tentando fazer com todas estas formas religiosas e filosóficas é tentar religar com a sabedoria original, a qual nós perdemos quando começamos a experienciar a cognição.

Se Terence está certo, então a cognição começa com as drogas, e logo o próximo passo seria tomar mais drogas para recuperar o que se tinha perdido. Assim, conforme esta leitura, a consciência humana e a religião humana, as quais estão tão intimamente ligadas, poderiam ter sempre estado envolvidas com plantas psicodélicas. Aqui nós nos voltamos contra um problema na antropologia, que só recentemente vim a saber. Quando antropólogos observam as sociedades mais “primitivas” que podemos encontrar - isto é, sociedades tribais de colhedores-caçadores – estas sociedades não parecem ter muito a ver com psicodélicos. De acordo com antropólogos, plantas psicodélicas aparecem na história humana com a agricultura – logo, no máximo, a 12.000 anos atrás.

Agricultura, a era na qual ainda estamos, é no máximo 1% de toda a história humana. Mas se você vai para a América do Sul e compara as tribos caçadoras e os agricultores primitivos, que cultivam um pouco de vegetais para subsistência, fazem alguma caça e pescaria – sem liderança forte, muito igualitárias – é nestes grupos que começamos a ver as plantas psicodélicas emergirem como um fenômeno cultural. Isso imediatamente me chamou a atenção de que há alguma coisa errada aqui. Porque agricultores deveriam conhecer mais sobre plantas selvagens que os caçadores e colhedores, que de fato dependem de plantas selvagens? Eles dependem pelo menos 70% da coleta e só 30% de caça. A coleta, a qual é normalmente feita por mulheres, é muito mais importante economicamente que a caçada, que é normalmente feita por homens. Os caçadores com certeza sabem sobre todas as plantas, mas ainda não necessariamente as ritualizaram : ainda não criaram um culto da planta psicodélica.

A agricultura é a única nova tecnologia radical que já apareceu no mundo; e equivale a um corte na terra. Se você lê qualquer antropologia sobre nativos americanos, vai descobrir que quando os brancos europeus chegaram e tentaram forçar as tribos para a agricultura, o povo das tribos sempre dizia a mesma coisa: “Quê, você quer que a gente estupre nossa Mãe, a Terra? Isto é perverso. Como você poderia pedir para seres humanos fazerem isso?” A agricultura imediatamente aparece como um mau negócio para estas tribos. Não há dúvida de que esta tecnologia leva inevitável e muito rapidamente a hierarquias sociais, separação, estrutura de classes, propriedade, e religião tal como a entendemos – um clero que diz para todos os outros o que fazer e como pensar. Isso leva a, em outras palavras, autoritarismo e, fundamentalmente, no próprio Estado.

Economia, dinheiro, toda a miséria da civilização, nós devemos à agricultura. Antes disso, você tem dois milhões de anos de caça e coleta, a bela arte rupestre, um mundo que se mostra suspeitamente utópico, uma era dourada em comparação com o tanto de problemas que a agricultura ocasiona. De alguma forma, a agricultura é a queda do paraíso. Não quero ser um reacionário, um ludita – estou simplesmente apontando algo que é muito real e óbvio, mas levou muito tempo para seres humanos civilizados perceberem isto. Nos anos 60, o antropólogo Marshall Sahlins descobriu que as sociedades caçadoras e coletoras que existem hoje só trabalham uma média de quatro horas por dia para conseguirem sua comida, enquanto as sociedades agrícolas trabalham uma média de dezesseis horas por dia.

Caçadores-coletores têm cerca de 200 tipos de comida em suas despensas pelo curso de um ano, enquanto os agricultores primitivos só vão comer uma média de vinte.

Segundo este ponto de vista, Sahlins apontou, é absolutamente incompreensível que alguém abandonasse a caça pela agricultura. Desde então li esse livro chamado “Economia da Idade da Pedra”, tenho tentado conceber por que renunciamos a esta situação meio Jardim do Éden? Claro que o caçador conhece a fome, mas ele não conhece escassez; essa só vem a existir com a economia. A vida do caçador pode ser miserável – pode ser muito fria, muito quente, muito nua, ele pode ser pego pelo urso polar, o que quer que seja – mas aquela coisa que o caçador não tem de jeito nenhum são as misérias da civilização.

Se formos falar dos aspectos positivos da civilização, lembremos que eles só estão servíveis para 10% de qualquer população dada, em outras palavras, a elite proprietária. Para qualquer outra pessoa, a civilização é um negócio fodido e terrível. Ela torna você um servo ou um escravo, para o sacrifício humano. Nós sabemos que o canibalismo pertence à agricultura, não às tribos caçadoras. Gosto de pão – não estou disposto a renunciar ao pão. O que estou tentando apontar para vocês com este exagerado ataque à agricultura, é que a agricultura é um rompimento tecnológico muito severo. É como se você traçasse uma linha: desse lado há floresta selvagem, e deste lado há cultura, humanidade e, finalmente, civilização. Do lado claro, nós aramos a terra, traçamos linhas retas, conhecemos a tecnologia das sementes. O calendário é a primeira ideologia, no sentido da falsa consciência, porque só fazendeiros poderiam inventá-lo. A indústria é um epifenômeno menor da agricultura, sob este ponto de vista. A agricultura é a única tecnologia importante que já foi inventada e ela solicita uma completa reavaliação da relação humana versus o mundo natural, o mundo de plantas e animais.

Como um resultado desta relação inteiramente nova, desta novidade, vai ocorrer uma interpretação absolutamente nova da planta psicodélica. A planta mágica, enteogênica, vai agora emergir num contexto religioso – enquanto antes ela poderia ser só uma questão do conhecimento inidual de um colhedor individual. Agora, de repente, tem de haver um culto da planta enteogênica. Por ser tão traumática para a sociedade humana, a agricultura necessita ter uma relação viva, xamânica, mágica, com as plantas. Antes, plantas eram como quaisquer outros seres, agora elas são estranhos espíritos que crescem na floresta. E, de fato, um antropólogo escreveu um livro fascinante sobre o tabaco como uma planta psicodélica na América do Sul: a primeira agricultura teria sido o cultivo de plantas psicoativas, e é por isso talvez que seres humanos vieram mesmo a se tornar fazendeiros, para assegurar um bom suprimento de tabaco ou cogumelos ou o que quer que seja. Um amigo meu uma vez disse: “É, tudo é psicotrópico”. Qualquer substância que você ponha no seu corpo vai ocasionar uma transmutação. Não me importa se é água, comida, ar – é tudo transformação através da substância.

Não é verdade que a agricultura descobriu os psicodélicos. Posso provar, com base na mitologia, que a sociedade dos caçadores os conheciam muito bem. Todos os mitos referentes a plantas psicodélicas sempre dizem que nós aprendemos sobre as plantas pelos povos selvagens da floresta. Um exemplo: o culto Buiti do noroeste da África, que é baseado na ibogaine. Eles clamam que pegaram ela dos pigmeus. De repente, nós parecemos ver pela primeira vez o aparecimento da planta psicotrópica. Enquanto antes ela era simplesmente uma entre muitas coisas psicoativas num mundo que era inteiramente psicoativo, agora ela é a substância especial que vai nos permitir recuperar essa sabedoria original. Ela vai nos fazer mais que conscientes, vai nos dar algo além da mera consciência, que num sentido será um retorno a essa sabedoria original da natureza.

Está bastante claro que todas as grandes sociedades neolíticas tinham algum tipo de culto de soma – a palavra sânscrita para a experiência psicoativa. O Rig-Veda, um dos mais velhos livros da humanidade, é todo sobre a experiência psicodélica. Se ao menos Tim Leary tivesse usado o Rig- Veda em vez do Livro Tibetano dos Mortos para apresentar o LSD, os sessenta poderiam ter sido uma década diferente. O Livro Tibetano é sobre morte, um baixa-astral, enquanto o Rig-Veda é muito sobre vida e alegria e poder. De qualquer forma, todas as sociedades neolíticas e clássicas tinham alguma variedade disto. Nós devemos todas estas descobertas ao grande Gordon Wasson, que foi o primeiro a discutir se o soma do Rig-Veda era de fato um cogumelo mágico. Ele também chegou à conclusão de que os mistérios de Elêusis, uma das principais ritos religiosos dos gregos antigos, eram também estimulados por uma planta psicoativa. Os antigos persas tinham algo chamada “helma”, que deveria ser uma planta que contém armolina. Reinvindico ter descoberto que irlandeses da antiguidade tinham um culto similar…e obviamente nós sabemos dos aztecas e maias: eles ainda tinham um ativo culto psicodélico quando os conquistadores chegaram. Em algumas das antigas crônicas espanholas pode se ler realmente sobre cogumelos mágicos. Mas de alguma forma estes textos foram perdidos, ou ninguém os leu, ou se os leram, não acreditaram neles, ou ficaram horrorizados com eles.

É a difusão da cristandade que parece sinalizar o fim do mundo psicodélico clássico. John Allegro, um dos originais estudiosos dos manuscritos do Mar Morto - ele ficou louco, conforme a maioria das pessoas – escreveu um livro chamado “The Mushroom and the Cross” (O Cogumelo e a Cruz) no qual ele afirmou que Jesus Cristo era um cogumelo. Sempre senti que Jesus Cristo pode ser qualquer coisa que você queira que ele seja, então porque não? Historicamente, talvez este efeito anti-psicodélico teve algo a ver com o vinho, o sacramento da cristandade. O vinho mesmo, embora seja psicoativo, não é nada psicodélico como cogumelos mágicos. E o alcoól tem seus problemas. Terence McKenna tomou uma posição bastante puritana: anti-alcóol, café, açúcar, chá, qualquer desses psicotrópicos modernos.

O Ocidente provavelmente perdeu o conhecimento da maior parte das substâncias de alteração mental num processo gradual paralelo à difusão da cristandade. O vinho é sacramentado, e seu potencial dionisíaco permanece, como mágica – por exemplo na missa católica, uma performance mágica em que pão e vinho viram um festim canibal, e na “função soma”, que significa que tudo são psicotrópicos. Como disse um poeta sufi: “Um bêbado nunca se tornará sábio, mesmo depois de cem garrafas de vinho, mas um homem sábio ficará intoxicado com um copo de água.”

Pensem em Rabelais, por exemplo. Ele dedicou o último capítulo de seu livro ao que chamou a “Erva Pantagruelion” e é claro que ele está falando aqui de

maconha. Logo, o conhecimento psicodélico não foi nem mesmo perdido, nem mesmo na época de Rabelais. Ele foi transmitido duma forma não alfabetizada – por mulheres sábias, médicos rurais, curandeiros, e mães camponesas que conheciam sobre plantas. O conhecimento se tornou oculto, é um segredo. Rabelais está brincando com o fato de que ele está a par de algo que você não sabe. O conhecimento nunca foi perdido porque nenhuma cultura pode persistir sem alguma abertura para a consciência não-ordinária. Você tem de ter alguma válvula de escape para a civilização, mesmo se for psicose em massa. Tem de haver uma escapatória.

A idéia de transformação através da ingestão de enteógenos ou plantas psicodélicas ainda não tinha sido totalmente suprimida mesmo na Alta Idade Média. O conhecimento foi condenado para o inferno. O cogumelo da psilocibina sempre esteve aqui, nunca sumiu, mas estava escondido – estou falando como Terence agora, apenas tomemos isso como uma metáfora - estava escondido porque ninguém o reverenciava, ninguém o necessitava. Não foi porque Wasson tirou os esporos de suas botas em 1956, que de repente cogumelos mágicos estavam por todo o mundo de novo; foi porque alguma mudança de paradigma ocorreu na mesma época. Se Wasson não o tivesse feito, alguma outra pessoa teria feito a descoberta. Como diz Robert Anton Wilson, “Quando é tempo de motor a vapor, a coisa é motores a vapor.”

A redescoberta já estava em curso desde o século dezenove quando gente como Baudelaire, Rimbaud e De Quincey, ou os românticos, entraram no haxixe e no ópio. Eles aprenderam sobre isso do mundo islâmico. Mais uma vez, de uma maneira oculta e velada, estes eram poetes maudites - conhecimento maldito, conhecido por gente maldita. Então há Antonin Artaud, que foi para o México e tomou peiote; ou Ernst Jünger, Mircea Eliade, C.G. Jung, Walter Benjamin, Ernst Bloch – todos eles estavam fazendo experiências com drogas. Nós sabemos de Aldous Huxley porque ele escreveu o primeiro livro desse tema em inglês. Então, quando acontece a revolução psicodélica, já é uma velha estória.

A invenção do LSD, em torno de 1945-47, é de alguma forma emblemática para mim. Ela é, de fato, a primeira droga psicodélica sintética; e a coisa notável a seu respeito é que você precisa de 200 mg ou mesmo menos. Isso não é nada. Ela leva toda a estória da experiência psicodélica para o mundo novo, muito mais técnico, da ciência moderna. Antes, era o mundo primitivo das plantas. Há uma razão para isto. No começo, formulei a hipótese de que as drogas primeiro aparecem na história humana porque elas são usadas de forma religiosa em sociedades agrícolas, e o uso e descoberta de psicodélicos é de alguma forma uma resposta a um desenvolvimento tecnológico. Este avanço tecnológico torna mais lancinante, mais violenta, nossa separação daquela sabedoria original, daquela experiência da pura consciência animal. Sendo assim, é a própria tecnologia que provoca o reconhecimento, por parte das primeiras sociedades agrícolas, do aspecto cúltico e religioso destas plantas. Agora estamos aqui, um bom tempo depois na história humana – e ocorre o primeiro desenvolvimento interessante em tecnologia desde a agricultura.

Podia ser que, por volta de 1945, nós víssemos as coisas…em vez de se tornarem mais e mais massivas – de repente ficarem mais desmaterializadas. (A bomba atômica desmaterializa a matéria de uma forma muito radical.) De um lado, uma experiência muito espiritual, e, de outro, o computador - o qual, como nós sabemos agora, estava destinado a gerar a “economia da informação.” Você não pode comer informação, logo ela não é realmente uma economia, e nunca será – mas apesar disso há algo nesta expressão. Há uma verdade por trás da merda, há esta desmaterialização, uma revulsão contra o peso do corpo, uma desincorporação da produção. Nós sabemos que computadores são supostamente um grande acontecimento espiritual, embora ainda seja uma máquina; não é uma máquina pesada, uma máquina simples, um botão de liga/desliga.

É claro que nós não superaremos a economia da produção por meio disto. Alguém ainda tem de fazer sapatos, de cultivar alimentos – e não vamos ser nós! “Nós” não vamos sujar mais nossas mãos com isso. Deixem os mexicanos fazerem isso, enquanto nós habitaremos este maravilhoso espaço gnóstico de pura informação. Nós mandamos nossas sujas fábricas poluentes para a Índia, Bofal, para Chernobyl, de forma que possamos ficar limpos, e possamos ser a “ciberclasse”. Não importa o que vocês pensem sobre os potenciais liberatórios do computador, nós também devemos levar em conta o fato de que há uma desincorporação acontecendo. Subitamente você não tem mais corpo – é análogo á desincorporação que a bomba atômica traz consigo quando ela o atinge. É por isso uma coincidência que precisamente nestes mesmos dois anos, o LSD é sintetizado, a mescalina, o MDMA, mais a redescoberta do cogumelo…

Há uma ligação muito interessante entre a tecnologia e a experiência psicodélica. Provavelmente a ocultação dos psicodélicos tem seu clímax com a industrialização e com a furtiva substituição do espaço orgânico pelo espaço maquínico como um princípio de ordenação psíquica. Mesmo a consciência agrícola ainda é consciência orgânica: ela tem a ver com a terra, com plantas e animais. É uma consciência muito gradeada (1), ordenada, mas ainda é orgânica. Mas à medida que nos encaminhamos para os “Moinhos Satânicos” (Blake) e a classe trabalhadora de Engels, o espaço maquínico se tornou o princípio ordenador. Não é mais o arado que cria espaço, é a linha de produção que cria o espaço psíquico. Então o puritanismo vitoriano e o imperialismo devem representar a repressão pública do inconsciente por uma sobriedade rígida baseada num modelo mente/máquina que é o cogito isolado e mandatório. Se você quisesse descobrir um período da história humana em que houve realmente uma completa amnésia sobre a experiência psicodélica, este poderia ser o século dezenove, por volta de 1830-1880, quando nós pessoas civilizadas não só esquecemos de que houve algo como a experiência psicodélica como a negamos.

Como uma cultura, nós gostamos de rir de tribos primitivas – por exemplo, aqueles aos quais são mostradas fotos deles mesmos e que não conseguem se reconhecer nelas. Mas em 1876 um cientista francês caiu por acidente dento de uma das cavernas paleolíticas. Mais tarde, em seu diário ele escreveu que parecia haver alguns rabiscos na parede. Ele não podia ver que aquilo era arte, ele era tão cego quanto o pigmeu que é cego para a fotografia. De repente, uns poucos anos mais tarde, as pessoas podiam ver aquilo como arte. O que permitiu que T. S. Eliot dissesse que depois de Lascaux, a arte ocidental “tombou da escadaria”. O que permitiu Picasso de

repente ver máscaras africanas, os impressionistas franceses verem arte japonesa, os hippies nos sessenta escutarem música indiana? Para os britânicos colonialistas que visitassem a Índia, a música para eles era como a “choradeira de mosquitos – como eles podem suportar isso?” Os ingleses não podiam ouvir isso como música. A geração dos meus pais nunca poderia escutar música indiana como música: “O que é esse ruído de zumbido? Garotos, vocês estão chapados de novo?” Isso é o que chamo mudança de paradigma da cognição.

No exato momento em que a enteogênese – isto é, o nascimento do Divino Interior – reaparece no ocidente, com os românticos tardios como uma subcultura, como “história oculta”, estão sendo postas as condições para esta mudança de paradigma. Nós ainda estamos basicamente submetidos a ela. A única coisa que poderia mesmo fingir suprimir esta mudança de consciência seria a Lei, como na Guerra às Drogas(2). Mas nossa lei é uma lei máquina, uma lei gradeada, mecânica, e ela é obviamente incapaz de conter a fluidez do orgânico. É por isso que a Guerra às Drogas nunca vai funcionar. Você deveria igualmente declarar guerra a todas as plantas. Logo o discurso publico está próximo do esgotamento quanto à questão da consciência. A Guerra às Drogas é um combate à própria cognição, ao próprio pensamento como à condição humana. É o pensamento esta razão cartesiana dualista? Ou é a cognição esta coisa misteriosa, complexa, orgânica, mágica, com pequenos elfos do cogumelo dançando em torno? Qual há de ser?

A Guerra às Drogas é uma guerra de paradigmas. Todo refinamento na consciência maquínica vai evocar uma resposta dialética do reino orgânico. É como se os elfos do cogumelo estivessem lá; como se houvesse uma consciência da planta que responde à consciência maquínica. Isto é uma metáfora tão bela – você não tem de acreditar em elfos, tudo é consciência humana, em ultima instância. Você não tem de acreditar em algo sobrenatural para explicar isto. Então, em torno de meados do século vinte a tecnologia começa a se afastar de uma perspectiva imperial-gigantesca para uma dimensão mais “interna”, com a quebra do átomo, o espaço virtual das comunicações e o computador. E foi por volta da mesma época que os psicodélicos realmente sérios começaram a aparecer – mescalina, psilocibina, LSD, DMT, ketamina, MDMA, etc., etc.

A guerra de paradigmas que está rebentando agora é uma medida de um antagonismo entre ciberespaço e neuroespaço, mas a relação não pode ser simplesmente vulgarizada como uma dicotomia. Isto nos traz à baila a assim chamada “segunda revolução psicodélica” – só uma outra batalha no mesmo combate. Sob um ponto de vista, nós perdemos a Guerra às Drogas nos sessenta, ela foi esmagada e levada para o subterrâneo de novo. O que Leary e Huxley sonharam, uma transformação da sociedade através desta experiência, não aconteceu. Ou aconteceu? Agora nós sabemos que a CIA estava profundamente envolvida na difusão do LSD pelo mundo. Na segunda viagem de Wasson para o México, havia um agente da CIA no grupo. Todos tiveram um momento maravilhoso, exceto uma pessoa – advinhem quem… Eles estavam interessados no lado “bad-trip” – certamente também uma experiência psicodélica. A CIA tentou monopolizar o LSD, controlar sua distribuição, eles virtualmente financiaram todos os projetos de pesquisa. Eles estavam interessados em lavagem cerebral. Os sessenta devem tanto à CIA quanto aos Learies e aos hippies. Havia esta

complexa rede do bem e do mal, do sabido e do estúpido, tudo numa mistura de padrões de fumaça fractal influenciando um ao outro, no qual cada jóia reflete todas as outras jóias. Essa é a história secreta dos sessenta.

Durante os setenta e oitenta as coisas se mostraram completamente sombrias. A “segunda revolução psicodélica” que temos agora envolve novas drogas como a ibogaine e uma abordagem científica mais cuidadosa. Nós todos aprendemos a ser cuidadosos quanto a de onde vem os fundos, e nos protocolos. E há uma nova geração: não se preocupe, os garotos estão certos. O LSD é uma droga perigosa, destrói algumas pessoas, mas a vida é um negócio arriscado. Se há uma coisa que odeio é a palavra “segurança”. Vivemos numa civilização de segurança, na qual estamos eventualmente encasulados de todo perigo, quero dizer, de toda experiência. O que nos é deixado é um vegetal plugado num computador, que nunca deixa o quarto, como uma hedionda visão de um romance de William Gibson. Redescobrir o risco seria um bom conselho para nós.

A nova guinada do trabalho psicodélico pode ser encontrada no trabalho da Albert Hoffmann Foundation e na difusão do ácido na Europa oriental – tudo parte desta “segunda revolução psicodélica”, a qual ligo muito à Internet, esta resposta dialética entre o mundo da planta e o mundo da máquina. O antagonismo entre ciberespaço e neuroespaço é uma coisa – mas há também uma analogia. De alguma forma, o ciberespaço é alucinógeno, ou foi pensado para ser. Ambos envolvem um espaço interno visionário. É como dizer que o LSD é como a bomba atômica, “ele explodiu sua mente”. Ele tem este lado negativo também.

Deixem-nos ser claros: o ciberspaço está acontecendo fora de seu corpo, você deve mover seu corpo, vendo estas animações ruins se movendo ao seu redor. A realidade virtual já fracassou?

Alguém disse hoje que a realidade virtual fracassou porque ela já foi virtualmente experimentada através da mídia. Poupe seu dinheiro e escute sobre isso na tevê – isso é o bastante. É muito conceitual, um desses futuros que nunca aconteceu e nunca acontecerá. E não esqueçam que ciberespaço é muito mais que só RV (Realidade Virtual). A Rede realmente importante não é a internet, mas a rede bancária internacional. Lá, um trilhão de dólares está sendo movimentado todo dia. “O dinheiro foi para o paraíso,” como meu amigo Gordon costuma dizer. Dinheiro que se refere a dinheiro que se refere a dinheiro, etc. – o conceito mais abstrato que a humanidade já desenvolveu. Comparada a isto, a internet é nada, um minúsculo recanto das telecomunicações.

Apesar disso, a internet é interessante para mim porque ela parece ter um potencial liberador – nós queremos descobrir seu aspecto psicodélico. Pessoalmente estou ficando mais e mais pessimista, as trajetórias todas parecem acabar numa redução da nossa autonomia. A internet ou vai ser um outro instrumento para resolver a crise do capitalismo global, ou vai desaparecer ou ser relegada a um meio de comunicações menor, algo bem menos importante que a agência de correios. Há pouquíssimos espaços deixados para uma bela agitação. Não podemos mais esperar vencer esta particular batalha da guerra de paradigmas. Não acredito que esta tecnologia, mais que qualquer outra tecnologia, vai ser o instrumento que nos trará liberdade e glória. Ela não é a solução; não é nem mesmo a

pergunta, muito menos a resposta. Preferiria ver a questão ampliada para incluir o neuroespaço – porque o ciberespaço, conceitualmente, é uma forma de desincorporação.

Como um historiador das religiões, vejo que a tragédia da história humana é a separação da mente e do corpo. Desde os tempos da Mesopotâmia, a religião tem sido sempre uma tentativa de escapar do corpo: ela se torna mais e mais gnóstica, no sentido do aversão ao corpo. Se você quiser ouvir algum maravilhoso gnóstico, tudo que você deve fazer é escutar algum dos entusiastas defensores da internet. As pessoas que realmente acreditam que você vai transcender o corpo, fazer o download da consciência, escapar do cadáver. Isto é imortalidade através da tecnologia, transcendência através da consciência maquínica. Isto é a mesma coisa que o “vire pastel quando bater os pés” (pie in the sky when you die) que antigos anarquistas usavam para criticar a religião. A internet, neste aspecto, é simplesmente a versão moderna da religião. O ciberespaço é a nossa versão do paraíso.

Estes mitos não vão embora. Tal racionalismo acaba se revelando um outro culto irracional, apenas uma outra ideologia, uma outra forma para a consciência de classe. O problema da reincorporação, portanto, é a única pergunta religiosa, intelectual e técnica que precisamos nos fazer. O corpo é ao mesmo tempo o mistério e a chave para o mistério. O ciberespaço não acontece no corpo. O “Corpo Sem Órgãos” é uma expressão de Deleuze e Guattari - e eles são estranhamente ambivalentes sobre o aspecto moral deste corpo. Entendo que a sua “consciência maquínica” não seja necessariamente maligna. Poderia falar sobre a experiência psicodélica como uma máquina imaginal. Minha rixa com a consciência maquínica surge quando ela postula que o corpo é maligno e a mente é boa. E não esqueçam que a igreja católica amava Descartes. Esta consciência cartesiana, que agora pensamos como maquínica, moderna e científica, foi uma vez aclamada pela igreja católica como uma verdadeira filosofia religiosa.

O neuroespaço também envolve alucinações. Você pensa que está no Palácio da Memória, mas não está. Você está apenas sentado em seu quarto, viajando em ácido: está num espaço imaginal, da mesma forma que no ciberespaço. E ainda, onde mais este evento está ocorrendo, senão no corpo? O neuroespaço é um espaço de incorporação. O ciberespaço é um espaço de desincorporação. Não quero soar como um moralista…Podemos acrescentar termos como “complexidade”, “caos”, ou “a cármica teia de gemas” (3).

Os últimos desenvolvimentos na consciência maquínica têm um aspecto “Deleuzo-Guattariniano” de subversão, tal como no ativismo via internet - com um certo sabor psicodélico. Enquanto “drogas” são criadas de uma “segunda natureza” que não é nada senão maquínica, toda a “crise das drogas” é, em boa parte, uma crise da consciência maquínica – e a heroína e a cocaína são, em boa parte, produtos- máquina, assim como o LSD. No entanto, um aspecto opositor também aparece, uma “segunda revolução psicodélica”, uma dialética de re-incorporação (“neuroespaço”) como oposto à tendência na direção da falsa transcendência e desincorporação no “ciberespaço”.

Uma das grandes “redescobertas” desta nova enteogênese é a natureza dialética do ayahuasca ou iagé (Santo Daime) – isto é, que DMT orgânico

pode ser “mirado” com um inibidor MAO como a armina, e que plantas es destas duas substâncias estão globalmente difundidas, totalmente espalhadas ao ponto da ubiquidade, impossíveis de controlar, e acessíveis. Preparados só requerem baixa tecnologia de cozinha. O neo-ayahuasca, ao contrário da tecnologia de computador, não é parte do capitalismo nem de qualquer outro sistema de controle ideológico.

É justo fazer esta comparação? Sim, na medida em que a enteogênese e a cibertecnologia estão ambas interessadas em informação e, consequentemente, em epistemologia. De fato, nós poderíamos chamar ambos de “sistemas gnósticos” – ambos estão implicados no objetivo do conhecimento que emerge do abismo que parece separar a mente/alma/espírito do corpo. Assim, a versão enteogênica deste conhecimento, no entanto, implica em alargar a definição do corpo para incluir o neuroespaço, enquanto a versão cibernética implica no desaparecimento do corpo em informação, o “download da consciência”. Estes talvez sejam ambos absurdos extremos, antes imagens que situações políticas; elas também são potentes mitos, poderosas imagens.

Nós precisamos aqui de uma política – não uma ideologia mas uma ativa cognização (cognizance) das situações verdadeiramente persistentes, tão claramente quanto podemos captar em nossa condição modelada, chapada. Precisamos de um sentido estratégico de onde aplicar as cotoveladas de nossa arte material, os pequenos gestos marciais, Zen, onde mesmo uma pessoa fraca pode vencer uma batalha. Onde mesmo nós, desprezados marginais, poderíamos realmente possuir força própria e assim influenciar a história. Tudo isso leva a uma visão de auto-importância divertidamente apocalíptica e non-sense, como “Neuro-hackers vs. Nova Ordem Mundial”. Bem, é ao menos uma boa idéia para um romance de ficção científica.

(Transcrito e editado por Geert lovink e Ted Byfield) Notas

1. A noção do “gradeado”, o “gridwork”, representa, segundo o próprio Wilson/Bey, em A Arquitetonalidade do Psicogeograficismo, o desenho da cidade primordial de Catalk Hüyük, essa mesma “grade” cruel e estruturante que governa a memória e a História, daí Hakim Bey propor a “arquitetonalidade” da deriva, espaço anti-grade e festivo, a cidade da resistência psicogeográfica. (N. do Trad.)

2. Wilson usa a expressão War on Drugs, lema da campanha anti-drogas promovida pelo governo norte-americano.

3. “Para Gary Snyder, a imagem do universo como uma vasta teia de gemas (pedras preciosas) de muitos lados, cada uma constituída das reflexões de todas as outras pedras na teia e cada gema sendo a imagem de todo o universo, simboliza o mundo como um universo de comunidades ecológicas tradicionais.” Donald K. Swearer em Budhism and Ecology. (environment.harvard.edu/religion/research/budhome.html)

Tradução de Ricardo Rosas Texto extraído do site de Hakim Bey (www.hermetic.com/bey)